Protestos: o povo brasileiro "rebaixou" o rating brasileiro antes da S&P




Milhares de manifestantes foram às ruas para protestar contra o aumento dos preços de transporte público, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte 
Por Felipe Moreno   

SÃO PAULO - Uma das frases mais emblemáticas de John Maynard Keynes para falar sobre a influência da economia no dia-a-dia é "pessoas que acreditam que não sofrem nenhuma grande influência intelectual geralmente são escravas de um defunto economista". Pois pode-se dizer que poucas semanas depois da Standard & Poor's colocar o rating brasileiro em perspectiva negativa, o esperado rebaixamento veio. Nas ruas.
Milhares de manifestantes foram às ruas para protestar contra o aumento dos preços de transporte público, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outras tantas cidades do Brasil. Essa é uma daquelas situações que transcendem o mercado, a política e os negócios. É um grande sinal de descontentamento com a situação que se vive por aqui, vindo justamente dos jovens. 

Vivemos em uma situação de desemprego baixíssimo e a economia continua crescendo - mesmo que em um nível devagar. A classe C teve uma ascensão espetacular nos últimos anos e finalmente consome os produtos e serviços que lhes foram negados por décadas. Mas falta alguma coisa. 

Manifestantes reunidos no Rio de Janeiro; onda de protestos atingiu importantes capitais brasileiras e deve se estender durante esta semana (Tânia Rêgo/ABr) 
Ao protestar contra o aumento de R$ 0,20 na cidade de São Paulo e a "imoralidade dos gastos governamentais", os manifestantes brigavam por duas coisas que a S&P havia advertido ao colocar o rating nacional em perspectiva negativa: a resiliente inflação brasileira e os mal-gastos do governo. O ambiente macroeconômico brasileiro nos últimos anos piorou. E levou o social junto.

Já ficou claro que a briga não é apenas por R$ 0,20, ninguém mais fala disso. Não há dúvidas que a inflação corrói o bolso do trabalhador: o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor - Amplo) está no topo da meta há algum tempo e não mostra grandes sinais de enfraquecimento. Essa questão vem ganhando espaço não só nos debates econômicos mas também na esfera social - basta lembrar da "febre do tomate" que assolou as redes sociais e o noticiário alguns meses atrás.

É verdade que a hiperinflação, atualmente, é apenas um pesadelo restrito ao passado. O plano real acabou com ela e o governo Lula manteve os preceitos macroeconômicos que permitiram a estabilidade da moeda. Mas os manifestantes são jovens e fazem muito bem de lutar pela estabilidade monetária. No exterior, a CNN entendeu o movimento nacional como uma briga pela estabilidade monetária. 
Gastos mal-feitos

Do outro lado, incomoda também os mal-gastos do governo brasileiro. Os estádios Mané Garrincha e Maracanã, em Brasília e Rio de Janeiro, custaram, juntos, R$ 2,5 bilhões aos cofres públicos. A Copa do Mundo e Olimpíadas são considerados gastos excessivos, cheios de irregularidades. E vieram, majoritariamente, do governo - principalmente através do BNDES (Banco Nacional Desenvolvimento Econômico e Social). Cada vez mais se tem a percepção de que o orçamento fugiu do controle e de que o único a ter algo a comemorar com o mundial é a Fifa.

Enquanto isso, os grandes gastos diminuem o espaço de manobra fiscal do governo e a altíssima carga tributária reduz a competitividade do produto nacional. Até o governo entendeu isso e vem aplicando desonerações pontuais e renúncias fiscais para tentar manter a inflação sobre controle. Até agora, em vão. Soma-se tudo isso aos ainda reincidentes problemas de qualidade dos nossos setores de educação e saúde. A população comum sofre com o que acredita ser o descaso dos políticos - cujos benefícios não foram cortados e a quantidade de ministérios e cargos de confiança só vem a crescer.

Diante de um cenário econômico em deterioração como este, não é a toa que a S&P, a Moody's ou a Fitch venham a considerar que a capacidade de pagar os empréstimos tomados pelo governo possa piorar no futuro. Mas antes delas a população já "cortou o rating" das autoridades nacionais. E pelo andar da carruagem, a perspectiva da nota segue negativa.

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