Eike se cala, mas paga o pato


Em meio à derrocada de suas empresas, ex-bilionário vive nova rotina no Rio de Janeiro
Pablo Pereira, do Estadão

RIO DE JANEIRO - Quando o pato laqueado está no ponto na cozinha, não pode esperar, tem de ser servido. Mesmo que à mesa estejam nada mais, nada menos do que o dono da casa e a digníssima primeira-dama – e que o casal ainda esteja degustando as entradas, por mais deliciosas que sejam. Quando está pronto, quem manda é o pato.

Foi assim, rigorosamente, que o famoso prato chinês foi servido na noite de quarta-feira, 6, ao empresário Eike Batista, de 57 anos, e à namorada dele, Flávia Sampaio, 32, que recebiam amigos para jantar no Mr. Lam, elegante restaurante com sabores de Pequim no Jardim Botânico, no Rio.
Sumido da badalação carioca nos últimos meses, coisa que pelo seu passado de bilionário, festeiro, playboy, esportista e apreciador das belezas locais deve ter-lhe custado muito, Eike (pronuncia-se Aique, segundo a secretária dele, dona Lúcia) Batista estava bem à vontade apesar de a quarta-feira não lhe ter sido assim uma Brastemp.

Jantar. Na chuvosa semana da cidade maravilhosa, as empresas do Grupo EBX mantiveram a baixa. A OGX, que entrou em banho-maria dias atrás, após a decretação da recuperação judicial, fechara a jornada com desvalorização de 18% nas ações.

Quando as notícias do dia pareciam apontar para o desande geral – Bovespa em queda de 0,83%, petróleo (Brent/barril) com queda de 0,09% e outra das pérolas de Eike, a MMX, perdendo 9,45% na Bovespa –, o empresário encerrou o expediente para acomodar-se em uma mesa para quatro pessoas e dedicar-se aos prazeres do pato no prato – e a um divertido bate-papo.

Por volta de 19h20, Eike telefonou para a requintada casa do Jardim Botânico, localizada em uma charmosa esquina da Lagoa Rodrigo de Freitas (Maria Angélica com Borges de Medeiros) e avisou que levava companhia para o jantar.

Flávia, em um vestido preto com elegante decote, atraía a atenção no salão com sua morenice sorridente ao lado do namorado – eles têm um filhinho de 5 meses, Balder, terceiro herdeiro de Eike, batizado em outubro com festa marcada pelo branco na decoração. Flávia é advogada, empresária de moda, e conserva a forma de uma modelo saída da São Paulo Fashion Week.

À mesa com eles estava o ex-CEO da LLX, Marcus Berto, afastado da empresa na semana passada na onda de reestruturação do grupo, e que se disse presente somente como "um amigo". Um outro convidado não quis ser identificado. É mais ou menos a atitude de outros "amigos" do empresário consultados durante a semana, que alegaram falta de agenda para falar sobre ele.

Cozinha chinesa. No Mr. Lam, porém, o bate-papo rolou por quase quatro horas, animado pelas delícias da cozinha de Pequim, só encontradas no Rio naquele endereço. Eike estava em casa. O restaurante é dele.
E quando a ave lambuzada de mel com vinagre, e trabalhada nos temperos, passou no salão sobre uma bandeja estava laqueada por uma hora de forno depois de pelo menos um dia num gancho pingando gordura. A satisfação à mesa foi geral. Um time de quatro cozinheiros chineses, contratados em Hong Kong e Pequim, chefiados por um catarinense, o gerente e sommelier Eder Heck, de 33 anos, haviam terminado o assado mais famoso do restaurante.

Garçons e auxiliares então interromperam a saraivada de satay de frango, pelo menos 15 até àquela hora – Eike adora o espetinho – e enroladinhos de alface (Sqwab) com molho especial do chef Lam, guru que Eike "roubou" de Nova York em 2007, quando o restaurante que leva seu nome nasceu no Rio.

Iniciados os trabalhos com o afamado pato, ninguém reclamou. Eike bebia Coca-Cola, que ele chama de "champanhe americana", e Flávia, chá. Lá fora, uma chuva fina continuava, calmamente, molhando o Rio.
Arisco. Com sua petroleira OGX em coma nos últimos dias, Eike não dá entrevistas. "Não é o momento de falar", disse ele no restaurante. "Dentro de duas ou três semanas talvez possamos conversar", afirmou o empresário, antes de continuar o jantar. Para quem já teve o prazer de recepcionar celebridades, como mesa especial para Madonna durante visita da cantora ao Rio, Eike anda muito arisco. A quem o procurava na semana passada onde mora ou na empresa, seguranças desconversavam dizendo que ele nem estava na cidade.

Mas, abordado, é gentil. Àquela hora, no Mr. Lam, ele parecia nem se lembrar que nos últimos meses deixou de ser bilionário para passar de sétimo mais rico do mundo, com uma fortuna de US$ 30 bilhões, para a condição de um simples milionário – segundo os cálculos da Bloomberg, sua fortuna está na casa dos US$ 70 milhões.

Eike perdeu rios de dólares desde o início da crise empresarial, é certo. Mas conservou o humor. Pelo menos diante de convidados, do pato, dos satays com molho agridoce que levam seu nome ("Mr. Batista") e de outros segredos culinários do mestre chinês.

A paixão pela boa mesa rendeu à dupla uma sociedade – Eike tem 80% do restaurante e Lam, 20% – de sucesso. Lam, que está em Nova York, e o dono do império X, que evita a velha rotina, mas não abandonou a cidade, não vivem somente de patos e camarões e molhos sofisticados. Ambos gostam de umas escapadelas noturnas para atacar hambúrgueres.

São conhecidas no Rio as saídas do ex-playboy, pai também de Thor, 21, e Olin, de 17 anos (do casamento com Luma de Oliveira), por casas como o BB Lanches, no Leblon, onde Eike come o sanduíche "Queijo com Banana" (queijo prato, queijo minas e fatias de banana em fatias de pão de forma, prensado).
Eike é também amante das frutas. Adora as mangas. Os atendentes do BB Lanches, na esquina da Ataulpho de Paiva com Aristides Espínola, porém, lembram dele também pelo consumo de abacate. "Um cliente estava reclamando do suco de abacate, e Eike estava do lado", contou Zé Ricardo na sexta-feira. Ele viu quando "Eike pediu para provar o suco, e tomou". E pagou os R$ 6,50 da despesa. "Mas ele não tem aparecido nos últimos dois ou três meses", emendou John Ferreira, outro funcionário da lanchonete.

Na Lagoa, onde o empresário costumava caminhar (o trajeto tem cerca de 7 quilômetros e Eike em dia bom dá duas voltas) quando o tempo ajudava, o pessoal também não o tem visto. Para tristeza de Luciano dos Santos, há 15 anos vendendo água de coco (R$ 5) na banca próxima do Parque da Catacumba, "o homem rico sumiu". Ele já serviu Eike diversas vezes.

"Ele às vezes toma coco, às vezes água de garrafa", lembrou. "Dizem aí que ele já deu uma nota de R$ 100 e deixou o troco", afirmou o vendedor. "Mas comigo foi uma de R$ 50. Ele disse que o troco era da caixinha". Luciano e a EBX inteira torcem pelo fim do isolamento de Eike.

Restaurante teve investimento de US$ 3 milhões
No tempo das vacas ainda gordas, bilionárias, Eike Batista não economizou no investimento do restaurante chinês da Lagoa, no qual reapareceu na quarta-feira. Ele botou US$ 3 milhões no negócio e fez do chef um sócio. O Senhor Lam, de quem Eike ficou amigo em Nova York depois de uma orgia gastronômica na qual comeu 36 satay de frango, foi convencido da empreitada no Brasil também pelo gosto por produtos brasileiros, como coco e outras frutas que usa também em sobremesas.

O restaurante até chegou a ser pensado para o mercado de São Paulo. Mas Eike forçou a mão para que o negócio acontecesse no Rio. Minoritário na parceria, Lam arreglou para o majoritário. Sorte dos cariocas, azar dos paulistas!

Na noite da última visita do milionário, o Mr. Lam recebeu 130 pessoas nas 49 mesas distribuídas em três andares. No centro antigo carioca (ruas do Passeio, Senador Dantas e Praça Mahatma Gandhi), onde fica o edifício Serrador, sede do Grupo EBX, que está com a fachada de vidro destruída na pedrada por manifestantes anti-Eike, dias atrás, o ambiente já é outro.

Naquele quarteirão, Eike Batista já foi ícone de sucesso. Mas agora é sinônimo de quebrado. A maré virou tão violentamente para pior que até a garçonete Régina, da Cafeteria OK, que costumava servir um cappuccino caprichado no creme para o grisalho ricaço, faz dias que não tem o prazer de encontrá-lo. "Ele vinha e a gente brigava pra atender", confidenciou na quinta-feira, 7. "Agora, a gente só vê os carros deles passando pela rua", lamentou Jesus Calvino, gerente do café. "Tomara que tudo se resolva logo", emendou.

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