Nem Marx previu: O capitalismo não sabe o que fazer com o dinheiro


O marxista inglês David Harvey acha que o capitalismo vive um momento difícil. Há muito dinheiro em circulação, mas a maior parte passeia levianamente pelos mercados de capitais, longe da produção, ou repousa nos cofres dos bancos. "Os sinais são de que o capitalismo não sabe neste momento o que fazer com o excedente", disse à repórter Vanessa Jurgenfeld, do Valor.

O geográfo Harvey (sim, a geografia hoje é essencialmente uma ciência marxista; se você tem filhos no ensino médio, dê uma olhada nos seus livros didáticos) esteve no Brasil para lançar um livro de 1982, traduzido agora para o português pela editora Boitempo, "Os Limites do Capital".
O simpático senhor de 78 anos é imensamente popular entre os jovens, uma espécie de guru dos movimentos de rua, já que sua principal área de interesse são os centros urbanos. Pelas estimativas da editora, 4,2 mil pessoas participaram dos quatro encontros realizados em três cidades, Florianópolis, São Paulo e Rio, boa parte na faixa dos 20 anos.
Ele não é só um fenônemo pop-acadêmico passageiro. Harvey foi o 18º autor mais citado na área de humanas em 2007, segundo a publicação britânica Times Higher Education, com dados da Thomson Reuters. Da lista com 37 nomes, ele é o único geográfo, ou seja, é o figurão de sua área. Mais surpreendente: está muito à frente de seu mestre, Karl Marx, que empatou com o também alemão e ultrapop Friedrich Nietzsche, com 501 citações, nas duas últimas posições.

(A lista, dominada por marxistas, diz muito sobre o atual estado dos debates nas ciências sociais e humanidades: o primeiro é o filósofo francês Michel Foucault (2.521 citações), seguido de perto por seu colega pós-modernista Jacques Derrida. Sim, o materialismo anticapitalista do americano Noam Chomsky também chegou lá, em 15º, e por pouco não bateu a pobre metafísica de Immanuel Kant no 13º.)

Se do alto de sua cátedra da City University de Nova York Harvey está preocupado com o excesso de capitais, todos nós devemos estar. No entanto, ele não parece esperar um fim próximo para capitalismo -- como era o caso de Marx e seu parceiro Friedrich Engels, que viam em cada crise do capitalismo o prenúncio dialético da nova era socialista. Foram muitas crises desde então, e os dinossauros capitalistas insistem em não desaparecer para dar espaço ao paraíso na terra.

Harvey sabe que não vai ser por aí. Na entrevista de uma página, ele fala em coisas mais pragmáticas, uma delas seria tirar o Partido Democrata americano das mãos de pessoas "próximas a Wall Street" e, a partir daí, tentar algumas "reformas revolucionárias", como cortar a jornada de trabalho de 10 horas para 3 horas. (A redação do Valor está animada com essa possibilidade, mas ainda não sabemos se os acionistas vão acompanhar nosso entusiasmo.)

O que Harvey não fala (não foi perguntado, diga-se a seu favor) é como está o socialismo no mundo real, se imaginarmos que ele também usa esses dados ao elaborar sua crítica ao capitalismo. O silêncio pode querer dizer que a Coreia do Norte resolveu todos seus problemas desde que o ditador Kim Jong-un executou seu tio (jogou aos cachorros?) e mandou sua família para um campo de concentração ou que as vibrantes economias da Venezuela e de Cuba estão a um passo de ser modelos da sociedade perfeita.

Não seria absurdo imaginar que um leitor de Harvey pudesse se perguntar por quê, diante de tantos exemplos de fracasso do modelo socialista, ainda estamos aqui perdendo tempo com esse assunto. A lista dos mais citados da Times Higher Education tem uma resposta: nossa aposta é o fracasso.

Postar um comentário