O lobo de Wall Street e as matilhas de nossas empresas - Estratégia de Sobrevivente




Adriana Salles Gomes é editora-chefe da revista HSM Management
Jordan Belfort, o controverso personagem interpretado por Leonardo di Caprio no novo filme de Scorsese, explicita princípios e rituais de muitas empresas e sugere o debate: em que medida estes as distanciam dos clientes e da sociedade?

As declarações corporativas de missão, visão e valores surgiram para formalizar o comportamento que as empresas esperam ver em seus funcionários. Além de motivo frequente para piada interna, são um dos alvos preferenciais das ótimas ironias que o professor de filosofia Clóvis de Barros faz em suas palestras para executivos, porque costumam ser um balaio de gatos. Contêm sentimentos nobres como ética, transparência, preocupação com o cliente e com o futuro do planeta e, no meio, incluem algo do tipo “foco no resultado”.

Como foco implica concentrar-se em algo em detrimento de todo o resto, fica impossível o funcionário praticar tais valores, porque sempre há momentos em que lucro e ética, ou lucro e transparência, ou lucro e futuro, serão autoexcludentes.

A dúvida é se essas declarações incoerentes demonstram apenas uma falta de familiaridade com o português ou se são um arroubo de sinceridade no meio do mar politicamente correto. Qual é a aposta do leitor?
Eu sei que a mesma sinceridade no mar politicamente correto é o que está incendiando o debate sobre o novo filme de Martin Scorsese, O Lobo de Wall Street, que estreia no Brasil nesta sexta-feira. Ele vem recebendo uma saraivada de críticas por mostrar, de maneira humanizada, um personagem que enganou e prejudicou muita gente (com sua corretora Stratton Oakmont), sem condenação ostensiva.
Na minha visão, o maior incômodo com o filme não se deve à glamourização do faroeste em busca do dinheiro, com orgias de sexo e drogas (o que também podemos acompanhar em uma história mais próxima de nós, na minissérie “Serra Pelada”, exibida pela TV Globo). O que está pegando mesmo é que, apesar de ter atuado nos anos 1980 e 1990, o Jordan Belfort de Leonardo di Caprio é assustadoramente parecido com muita gente que conhecemos (ou até com quem nos tornamos, talvez).

Veja bem: ele tem foco no resultado (em detrimento de ética, transparência, preocupação com o cliente e com o futuro do planeta) e usa quase todas as ferramentas que a maioria das empresas adota hoje.
Talvez Scorsese e Di Caprio (que está soberbo no papel, diga-se de passagem) nos tenham dado uma oportunidade de ouro de repensar um pouco os princípios e rituais do mundo corporativo.

Alguns rituais são folclóricos e soam inofensivos, como o do vendedor (o corretor de ações, no caso da corretora de Jordan Belfort) dizendo aos clientes que vai transferi-los para um assistente para fechar os detalhes do negócio, atribuindo-se uma importância do que a que tem. Ou como o de a empresa nomear vários vice-presidentes entre os vendedores para o cliente sentir-se importante sendo atendido por alguém de alto escalão. Até em relação a estes tenho dúvidas: será que essas pequenas mentiras empreendedoras não abrem as porteiras mentais de cada um para mentiras maiores e piores?

Vou me concentrar em quatro pontos principais e em seu paralelo com o meio de negócios atual: o ambiente de trabalho que Belfort construiu em sua corretora, seu modo de recrutar pessoas, as técnicas de motivação que ele usa e seu estilo de liderança.

O ambiente de trabalho. Criar um clima de confiança na equipe virou o santo-graal da área de recursos humanos das empresas de uns tempos para cá. É claro: em um lugar onde todos desconfiam de todos, fica difícil fazer coisas que deem dinheiro. Vê-se na corretora de Belfort um sentimento de confiança e camaradagem raro, de uma equipe que se ajuda mutuamente, que é construído por meio de muita convivência em momentos de lazer, sendo festas ou brincadeiras (algumas terríveis, como a do tiro ao alvo de anões).

O modo de recrutar pessoas. O pensamento mais contemporâneo nessa área é de que tudo dá certo (ou dá errado) na contratação da pessoa, porque formar alguém do zero é complexo. Assim, busca-se contratar pessoas que compartilhem os valores da empresa contratante e que sejam automotivadas para fazer as coisas. Pelo que o filme mostra, Jordan Belfort contratava pessoas de alguma maneira marginalizadas pela sociedade (obesos, gente com pouco estudo, mães solteiras etc.) e que precisavam muito de dinheiro. Hoje tem muita companhia no Brasil que já prefere contratar jovens de famílias de renda mais baixa, mais ambiciosos e mais dispostos a dar o sangue.

A publicidade da corretora, que usava um leão como garoto-propaganda, e a matéria que chamou Belfort de “lobo de Wall Street” contribuíam para atrair as pessoas certas.

As técnicas de motivação. Em meados da década de 1990, a revista Industry Week publicou uma lista das 20 melhores técnicas de motivação sugeridas por especialistas de recursos humanos nos Estados Unidos, compilada por uma consultora de RH, Shari Caudron. Acho que é uma das melhores listas de motivadores que já se fez até hoje, apesar de se terem passado quase 20 anos, bem pé-no-chão e extra-modismos. Em outras palavras, se um número razoável de empresas brasileiras recorresse a essas técnicas, o que não acontece, estaríamos no paraíso.

1. Dar aos empregados as informações necessárias para a realização de um bom trabalho. 2. Dar feedback regular. 3. Solicitar-lhes ideias e envolvê-los nas decisões sobre suas funções. 4. Criar canais de comunicação fáceis de usar. 5. Aprender com eles sobre o que os motiva. 6. Saber o que fazem em seu tempo livre. 7. Cumprimentar pessoalmente cada empregado por um trabalho bem feito.8. Reconhecer o poder de sua presença física, em sua posição de chefia. 9. Enviar uma mensagem escrita ao empregado, elogiando seu desempenho. 10. Reconhecer publicamente um trabalho bem feito. 11. Promover reuniões destinadas a comemorar o sucesso do grupo. 12. Dar ao empregado uma tarefa interessante para executar. 13. Verificar se o empregado dispõe das ferramentas para realizar o melhor trabalho. 14. Reconhecer as necessidades pessoais dos empregados. 15. Usar o desempenho com base para a promoção. 16. Adotar uma política abrangente de promoção. 17. Enfatizar o compromisso da empresa com a manutenção do emprego no longo prazo. 18. Estimular o senso de comunidade. 19. Remunerar as pessoas de forma competitiva, em função do que elas valem. 20. Dar uma razão financeira para serem excelentes, como participação nos lucros.

Jordan Belfort aplicava as 19 técnicas (só não cravo nas 20 porque não há informações sobre participação nos lucros). Sheri Caudron também listou cinco desmotivadores principais, que infelizmente encontramos em várias empresas brasileiras: oferecer recompensa curinga (do tipo sempre a mesma no fim do ano), não ser específico ou oportuno no elogio, usar ameaças ou coação, não cumprir promessa feita, tratar empregados de modo burocrático e não como indivíduos diferenciados.

O estilo de liderança. Talvez Leonardo di Caprio seja bem mais cativante que Jordan Belfort; dê uma olhada no vídeo abaixo e você verá que ele não consegue obter o silêncio da galera enquanto fala. Isso mostra também, contudo, que as pessoas não o temem. Ele carrega a marca do bom humor, da descontração e da brincadeira em seu estilo de liderança.

E ele mescla o estilo amigão com discursos de Henrique V eventualmente. (Como nos conta uma peça do Shakespeare, o rei inglês fez, só no gogó, seus soldados vencerem uma batalha quando estavam em total desvantagem em relação ao inimigo; falou em honra e em glória etc. com palavras fortes e de grande impacto.)

DISTANCIAMENTO
Esses princípios e rituais não são ruins em si. Certo? Ao contrário, Jordan Belfort fazia várias coisas que consideramos boas! (Talvez por isso tenha incrivelmente conseguido se reinventar como consultor motivacional, apesar de parecer péssima a ideia de contratar alguém tão inescrupuloso para motivar funcionários.)
Só que repare: nenhuma delas consegue levar seu funcionário a colocar-se na pele do cliente ou na de outros stakeholders (palavra em inglês que significa partes interessadas na empresa e que abrange desde os acionistas até os moradores vizinhos da empresa, passando por fornecedores, clientes, distribuidores, funcionários etc.).

No jornalismo, usamos a expressão “na pele do lobo” para as ocasiões em que um repórter faz-se passar por um cidadão comum para mostrar o que esse cidadão enfrenta de verdade, fugindo das informações oficiais e distorcidas.

Também no universo corporativo, o profissional de uma empresa deve vestir a pele do lobo. O cidadão, seja ele cliente direto da empresa ou representante da sociedade como um todo, é o lobo que deve nortear suas iniciativas. Não o foco no resultado. Esse precisa ser decorrência, senão não chegaremos a lugar algum que preste como seres humanos – e nossos negócios afundarão, como aconteceu com o do Jordan Belfort.

O leitor pode argumentar, com razão, que Wall Street não é os Estados Unidos, e que os Estados Unidos não são o Brasil. Ou que nos anos 1980 e 1990 havia uma ânsia por dinheiro muito maior do que a atualidade. Mas o fato de que Belfort se recolocou no mercado como consultor motivacional significa, como dizem por aí. Scorsese sabe o que está fazendo. “O lobo de Wall Street” pode ser tão incômodo quanto olhar no espelho em dia em que a gente está se sentindo feio. E, se prestarmos atenção aos detalhes, pode nos ensinar onde e como melhorar.

PS 1: Preciso dizer que nem todas as missões de empresas são como essas citadas por Clóvis de Barros. A missão do Grameen Bank de Muhammad Yunus, que tem fins lucrativos e gera lucro apesar de conhecido como o banco dos pobres, é transformar a pobreza em peça de museu. Yunus, de Bangladesh, foi prêmio Nobel da Paz.

PS 2: A título de curiosidade, os valores da Siemens são “a melhor performance com a maior ética”, o que ela traduz para seus funcionários como eles tendo de priorizar três características – ser responsável, ser excelente e ser inovador. Já osvalores da Alstom são confiança, time, ação.

PS 3: Algo que lamentarei bastante é se o filme de Scorsese sabotar os mercados secundários de papéis de empresas que começam finalmente a erguer-se no Brasil, seja por meio dos fundos de private equity, seja pelo novo mercado de renda fixa (para títulos de dívida, não de ações). Como Jordan Belfort e seus comparsas manipulam absurdamente essas ações de empresas não listadas em bolsa, isso pode impactar os humores em relação a esse mercado.

Estou batendo na madeira três vezes para que isso não ocorra. É muito importante para nós que esses mercados de acesso se fortaleçam, para que as empresas tenham mais alternativas de captação de dinheiro que não sejam cair nas mãos dos juros bancários e, assim, possam investir em produção. (E para que os investidores tenham mais alternativas também.)

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