Conversa entre empreendedores: ‘Cansei desse País, vou para os EUA’ 10 de setembro de 2014




Leo Spigariol 

Às vezes, sinto-me como aquele personagem do desenho do Pica-pau, o
jacaré. Na história, ele dá dois passos para frente e um para trás. No
último mês, estamos discutindo muito sobre a desburocratização das
microempresas que estão no sistema Supersimples. Talvez, pelo fato de
estarmos próximos das eleições, o tema volta à baila.

De todo modo, não tenho a intenção de enveredar pela política, mas
sim pela mentalidade que rege o funcionamento de nosso sistema
administrativo – que, na essência, é o mesmo princípio que rege a nossa
vida pública. Essa essência está em todas as manifestações da nossa
cultura e economia.

No País, tivemos muitos avanços no último século no que diz respeito à
classe trabalhadora. Descansar o final de semana ou ter um limite de
carga horária são mais do que direitos, são premissas de bom senso e
humanidade. Historicamente, os sindicatos tiveram papel fundamental
nesse processo. Todavia, hoje percebo que algo se perdeu pelo caminho.
Aquela essência perversa da nossa cultura definitivamente se apossou dos
sindicatos.

Governo cria marquise protetora para pequenos
Ministério quer empresa fechada em um dia
Como toda estrutura burocrática, os sindicatos criaram seus vícios e
suas estruturas de ciclo contínuo de um mesmo comando. E se tornaram
máquinas estranhas. O tema que me chama a atenção é a voracidade com que
os sindicatos procuram aplicar os direitos dos trabalhadores, tal
categoria tem participação em lucros?

Bem, vamos até o “patrão” exigir essa parcela. No entanto, o que
ocorre quando a empresa do “patrão” não alcançou seu ‘break-even’, ou
ponto de equilíbrio. A missão deles é fazer um “acordo” calculado a
partir do balanço do lucro. E se não houve lucro? A empresa não alcançou
o tal ponto e lá vem a turma querendo sua parcela de direito.
Mas parcela do quê?

Um paradoxo: se não há lucro, não há o que dividir. Mas, nesse caso, o
“patrão” tem de distribuir os lucros, mesmo que ele não exista. Isso é o
Brasil, infelizmente. Na sexta-feira, encontrei um amigo que possui uma
fábrica que emprega diretamente aproximadamente 700 funcionários. Sabe o
que ele me disse? “Cansei desse País. Já iniciei o projeto de montar um
fábrica nos Estados Unidos. 

Aqui não tem ninguém sério. As pessoas não
pensam de forma coletiva. Todo mundo quer garantir o seu e ponto.”
E você, leitor e empreendedor, caso não saiba, dependendo do Estado e
do tamanho de seu projeto, o governo estadunidense se compromete a
pagar o salário dos funcionários até sua empresa começar a dar lucro. Ou
pelo menos só começará a cobrar os impostos quando alcançar o ponto de
equilíbrio. Chega a ser ‘non sense’ essa comparação entre Brasil e
Estados Unidos.

Enquanto uma entidade de classe aqui no Brasil quer fazer um “acordo”
e não está nem aí para real situação da sua empresa ou momento, nos EUA
você tem o suporte público para isso se tornar algo saudável. Nós só
conseguiremos criar um cenário favorável ao crescimento, tanto econômico
quanto social, quando mudarmos essa mentalidade que constrói clãs em
que cada um garante o seu quinhão. Bem da verdade, confesso que também
fiquei com vontade de mudar nossa fábrica para outro país.

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